Topónimos germânicos (V): terminações em -sende

Vai mais uma peça sobre as terminações de topónimos derivadas de genitivos germânicos, nesta ocasião referidas a -ende e -inde. Estas terminações correspondem-se com o lema paleo-germânico *senþaz 'companheiro' ou *swenþaz 'forte', e com elas, aparecem nos limites da antiga Gallaecia mais de meio cento de topónimos diferentes, sem contar os microtopónimos, cuja extensão ultrapassaria as possibilidades desta nota). Antes de mais, porém, interessa destacar que a raiz *send / *sind aparece na antroponímia tanto como protema (com -e-: Sendamirus, Sendericus, Sendinus, Sendredus, Sendulfus; e com -i-: Sindamundus, Sindigis, Sindileuba, Sindiverga, Sinduara) quanto como deuterotema, o que explicará a terminação -sende/-sinde que vamos analisar a continuação:

1. EQUIVALÊNCIAS DIRETAS

Topónimos com terminação em -sende
e -sinde na CAG. Fonte: Sitga-Ideg.
A maioria dos topónimos não apresentam qualquer complicação à hora de dar uma equivalência segura. É o caso de Ermosende (conc. Viveiro), com procedência segura de Ermosindus, documentado desde 745; ou de Bertosende (conc. Antas de Ulha), que deve o seu nome a Bertosendus, do qual há forma documentada na variante feminina Bertosinda (Celanova, 1010), resultando, então, de um possível uilla Bertosindae, ou de uilla Bertosindi, pois qualquer um dos casos terminaria por dar um final -e. Belesende, no conc. Pol, deve relacionar-se claramente com um Belesendus que, embora não aparecer documentado, é perfeitamente possível se atendermos às ocorrências de antropónimos como Belestrio, Belfonsus, Bellengus, Bellerto, Belmirus ou Belesarius, que dá, por certo, outro reiterado topónimo de origem germânica na Galiza: Belesar (concs. Chantada, Oíncio, Lugo, Savinhão e Coles). Por essa via, Belesende será, sem dúvida, uma uilla Belesendi. Outro dos antropotopónimos evidentes, e mais repetidos, é Gomesende, com ocorrências nos concs. Arteijo, Arçúa, Chantada, Pol, Vereia e no mesmo concelho de Gomesende. O antropónimo aqui é, em boa lógica, Gomesindus (Samos, 818).

Do mesmo modo, também não deve apresentar muita dificuldade o nome de Bosende, que aparece nos concs. de Arçúa, Tabuada e Mós. A sua equivalência não deve resultar difícil se considerada a perda do -n- intervocálico, que, restituído, dá o antropónimo documentado Bonesindus (923), do qual Bonesindi > Bonesinde > Bo(n)esinde > *Bœsende > Bosende. Da mesma maneira, há Esposende (concs. Cenlhe e Riba d'Ávia), proveniente do documentado Spanosindus (Cuntis, 898), com a mesma característica perda do -n- intervocálico. Com perda de intervocálicas também se dá Friosende (conc. Arçúa), que procede claramente de Fredosindus (Braga, 840), sem necessidade de muito maior comentário.

Lebesende (conc. Antas de Ulha) e Lebosende (concs. Carvalho e Leiro) são, estes sim, variantes de uma mesma forma antroponímica Leouesindus (Leão, 874), com betacismo -v- > -b- e com pretónica -e- ou -o- em função de se se produziu ou não se produziu metátese do -o- da ante-pretónica. Tenha-se em conta, ademais, que desde o último quartel do s. X há documentadas formas como Lovesindo e, já desde o s. VI, formas Levo- se considerarmos, v.g. Leboreto (Braga, 569), que, com genitivo deu o topónimo Leborei, que já estudamos noutra ocasião. Sem tanta dificuldade está o topónimo Madrosende (concs. Ourense e Vila de Cruzes), proveniente claramente de Matrosindo, identificado por Miguel Costa no seu estudo de antroponímia altomedieval galega. Marcosende, pela sua vez, procederá de Marcosendus, documentado já em genitivo ("leyram que vocatur leyra de Marcosindi", Ourense, 1240); e Remosende provirá de Remesendus, antropónimo documentado por Miguel Costa, a partir do qual é fácil explicar a evolução da pretónica -me- > -mo- pela influência da nasal.

Ousende (concs. Cambre, Messia, Savinhão e Paderne de Alhariz) parece estar relacionado, sem muita dificuldade, com Ausindus (Sobrado, 860), com o típico passo au- > ou-, que é obrigado em toda a evolução do galego-português, ainda quando haja algum caso isolado que fuja da norma, como Vilausende (conc. Ribadeo), proveniente de Vila + Ausende, sendo ausende aí, precisamente, como se diz, a excepção que confirme a regra. Com a mesma origem em Ausindus há documentado também o antropónimo Ozandus, provável hápax que dá formas como Ouzande (concs. Estrada e Silheda), com -zande como variante de -sende (*).

Quanto a Troitosende (conc. Avanha), é fundamental desligá-lo de qualquer zoónimo. Troitosende nada tem a ver com as trutas, mesmo sabendo como, em determinadas áreas da Galiza: latim uct- > oit; e, noutras áreas e fundamentalmente a sul do Minho: uct > uit > ut. Neste caso, a procedência é do antropónimo Tructesindus (Cuntis, 898), por sua vez procedente do PGmc *drūdaz 'amigo, amado'.

2. DEDUÇÕES COMPARATIVAS

Outros topónimos têm uma origem que merece maior explicação, ainda quando seja evidente a sua procedência de antropónimos germânicos em genitivo. No primeiro lugar desta grupo figura Aldosende, entidade e paróquia do conc. Paradela, para o qual aparece uma Aldosinda (Sobrado, 1162) que, por sua vez poderia estar relacionada, pelo seu primeiro termo, com o antropónimo documentado Eldesindus, ou com algum possível Aldesindus, não documentado, mas factível pela presença sim documentada de Aldemirus, Alderetus, Aldericus, Aldia e Aldinus e também de Ardesendus, Ardericus ou Ardaldus. Poderia ser, pois, como já temos proposto para os exemplos das anteriores terminações germânicas, uma uilla Eldesindi sobre o qual haveria que explicar  a mudança de e- inicial para a- que, por enquanto, não é estranha em galego-português (cf. v.g. Elgidi (1164) > Aldige). A outra opção, que proceda de Ardesendus, é talvez mais provável, com lateralização do rótico em posição de coda silábica (-r > -l), que tem lugar também noutros antropotopónimos germânicos (Ardulfe > Aldurfe) e não só. A equivalência entre -l- e -r-, em todas as posições silábicas, mas nomeadamente em posição final ou de coda, é um lugar comum na evolução do galego-português e, portanto, não deve estranhar, ainda quando seja difícil estabelecer um período concreto para uma mudança que se dá e se reverte com muita facilidade, e, aliás, tendo como único material as, neste aspecto geralmente pouco fiáveis, escritas medievais. Por outra parte, para reforçar o dito anteriormente sobre a equivalência Aldosende = Ardesendus, tenha-se em conta a ocorrência do topónimo Ardesende, tanto em Boqueijão como em São Cristóvão de Ceia.

Na mesma linha está Cristosende (conc. Teixeira), que parece provir de Vistrosindu, deduzível pola presença de Vistrimundu, Vistremiru, Vistraricus, etc. A evolução de Vistrosindo para Cristosende requer uma evolução w- > qu-, comum noutros casos como Guimarei (Vimaredu), Guisande (Visandu), etc.; e de uma metátese de -r-: Vistrosindi > Guistrosindi > Gristosindi > Cristosindi. Nesta evolução, operaria também a poderosa atração homofónica do étimo Cristo, sem dúvida.

Uma relativa dificuldade apresenta também Gosende (concs. Avanha, Brião, Cambre, Carral, Cerzeda, Compostela, Laracha, Maçaricos, Messia, Ordens, Ortigueira, Outes, Samos e Vila Marim), para o que há ocorrências de Gosindo desde 1084 (Samos) e de Gosindiz mesmo antes (Celanova, 942(ca)-977(ca)), cujo genitivo explicaria o topónimo. Outra coisa é determinar de onde é que procede esse Gosindo, que é, claramente, uma forma derivada de um intenso processo evolutivo, e não uma forma germânica "plena". O mais provável é que proceda de Gaudesindus (Sobrado, 887), com evolução -au- > -o- e perda do -d- intervocálico. Nada tem a ver, pois, Gosende com Gomesende, como muitas vezes se tem pretendido.

É possível que Lesende (conc. Lousame) e Lousende (conc. Friol) estejam relacionados com o mesmo Leouesindus desde o qual explicamos Lebesende e Lebosende? Se for assim, haveria que explicar evoluções fonéticas alheias à norma geral. Porém, pode que haja outra explicação. Ambos poderiam provir, voltando para as normas gerais de evolução, de Leodesindus (Liébana, 790), de onde é muito mais fácil explicar Lesende por perda do -d- e simplificação PGmc -eu- > -eo- > -e-; e também Lousende, com a mesma perda da intervocálica e uma evolução -eo- > -o- > -ou-. Relacionado com esta mesma evolução há também o topónimo Tosende (concs. Gontim, Alhariz e Baltar), proveniente de Teodesindus (Sobrado, 887), que dá (?) também Tasende (conc. Cerzeda).

Outro caso relativamente complexo é o de Mosende (concs. Cedeira e Ourol) e da sua variante Mousende (conc. Ponte Nova). Poderia pensar-se num Modesindus ou num Modesendus, nenhum deles documentado, por mais que sim apareçam Modericus (Celanova, 936), Moderido e Modildus, por exemplo; ou talvez mais propriamente num Munesendus ou num Monesendus, que também não figuram na documentação, mas cuja raíz *mon- está presente em formas como Monefonsus e Monebredo. Seja lá como for, procederia mediante a lenição das intervocálicas -d- ou -n-, própria do galego-português.

Quetesende, por sua vez, procede de Quetesendus que, embora não documentado, é factível pela presença de Quedemiro (Celanova, 958) e Quederigo (Braga, 1061). Estas formas, que apresentam raiz *ked- convivem com outras documentadas com raiz *ket-, como Ketemera ou Keterici (Lugo, 757), o que poderia explicar a presença de Quetesende em lugar de Quedesende, que, ademais, teria provavelmente sofrido um síncope do -d-, resultando em *Quesende. Com esse síncope aparece um dos antropotopónimos germânicos mais repetidos: Rosende (concs. Friol, Germade, Palas de Rei, Paradela, Ponte Vedra, Ribeira, Sárria, Silheda, Sober, Touro, Traço, Vedra e Zas) com a sua variante Rousende (conc. Oíncio). Ambas as formas procedem do nome Rudesindus, que em genitivo evolui para o Rosendi já documentado a meados do s. XIII.

De Recesendus temos, hoje, dois Recesende (concs. Baralha, Castro Verde) e dois Requesende (concs. Compostela e Laracha), ademais de um Ricosende (conc. Carvalheda de Val d'Eorras). É necessário, pois, considera uma dicotomia /k/ > /s/ vs. /k/ > /k/. A forma Requesendi, que apresenta conservação fonética de /k/, aparece já documentada desde o s. IX (Sobrado, 803: uillam quam dicunt Requesendi), do mesmo modo que a forma /s/ (Carvoeiro, 801(ca)-1000(ca)). Sabemos, em qualquer caso, que o processo /k/ > /s/ se produziu já durante a época do latim imperial, quando o ponto de articulação das oclusivas velares, neste caso /k/, se aproximou do ponto de articulação das vogais palatais /e/ e /i/, dando origem a formas do tipo /kye/ e /kyi/ que depois evoluiriam para /tše/ e /tši/, mantendo, por enquanto, a grafia "c". A existência de Requesendi antes já do s. IX demonstra, sem dúvida, que o processo estava já claramente terminado para essa data, porque de outro modo não se teria produzido a solução Reque- como diferenciação de Rece-. Mas isto, é claro, não obsta para identificar Requesende e Recesende como evoluções do mesmo antropónimo Recesendus. Quanto a Ricosende, a procedência de Ricosendus é evidente, mas interessa salientar a equivalência de Recesendus e Ricosendus: depois de tudo, com origem no PGmc *rīkjaz 'forte, nobre', há documentadas ambas as formas: Recaredus, Recemirus, e outros; e também Ricardus, Riquila, etc. De modo que, ainda quando é sabido como *rīkjaz produz deuterotemas preferentemente em -ricus que depois dão os -rigo atuais, também é importante destacar a presença de rico- como protema, que é o caso de Ricosende.

3. HIPÓTESES

Há também casos de etimologia bem mais escura, embora a sua aparência leve a identificá-los provavelmente com o mesmo mecanismo de formação de toponímia. É o caso de Carvosende (conc. Tabuada). É provável que nestes casos o antropónimo de que procedam esteja já formado, em origem, por elementos híbridos latino-germânicos, que não são comuns, mas também não devem estranhar. Aí estão, para evidenciar a possibilidade, exemplos como Crescemirus, vindo muito provavelmente do latim crescens, com o significado latino de 'crescente, próspero'; ou como Destericus e Desteilli, provavelmente procedentes do latim dexter 'destro, direito'; ou Enserico, do latim ensis 'espada'. Para Carvosende não disponho de evidências documentais, mas vendo a proporção de formas com terminação -ende / -inde que se explicam pela via dos antropotopónimos, seria arriscado descartar esta possibilidade para estes casos só por não se encontrarem provas documentais manifestas. Num grupo assim configurado deverão comparecer também Fortesende (conc. Arteijo), com fortis, que deverá aparecer no híbrido Fortesendus como aparece no documentado Gundifortis (Celanova, 856), e Formosende (conc. Fene), com evidente relação com o latim formosu (< Formosinda: Sobrado, 917), e com o mesmo significado. Aliás, no caso de Formosende, interessa destacar como o significado de 'formoso' estava já presente também através do tema germânico fred-/frid-, em casos como Fredosindus que, como se comentou, dá o topónimo Friosende.

4. SENDE E SINDE

Finalmente, embora até agora tenhamos considerado apenas formas provenientes de um sende / sinde como deuterotemas, há também casos documentados  em que funcionam como protemas, como já se explicou, e outros em que, simplesmente, funcionam como tema único. E daí teremos sende / sinde a funcionar como antropónimos por si mesmos, cujos genitivos darão os topónimos Sende (conc. Póvoa do Caraminhal) e Sinde (concs. Cabana de Bergantinhos, Narão, Padrão, Guitiriz e Pastoriza), sem maior complexidade.

LEIA MAIS:

  1. Topónimos germânicos (I): Terminações em -rei
  2. Topónimos germânicos (II): Terminações em -riz
  3. Topónimos germânicos (III): Terminações em -mil
  4. Topónimos germânicos (IV): Terminações em -ulfe, -ufe, -oufe
  5. Topónimos germânicos (V): Terminações em -sende e -sinde
  6. Topónimos germânicos (VI): Terminações em -ilde
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(*) Nesta nota refiro-me apenas às terminações -sende e -sinde. Como variante de -sende há algumas ocorrências de -sande, como em Ouzande ou Trasande. Mas a complexidade desta variação obriga a tratá-la especificamente noutra nota. 

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