Lugares com falso nome de pessoa (II): Mariola, Marta e Martim

Continuando com o fio sobre lugares com falso nome de pessoa, no qual já foi tratado o caso de Suso e Susana, vejamos agora mais um exemplo com os nomes de Mariola, Marta e Martim. Mariola é, na Galiza, hipocorístico do nome bíblico Maria (hebreu Miriam). Marta é também nome bíblico, derivado do hebreu-aramaico מַרְתָּא, isto é "a Senhora"; sem dúvida é daí, através do culto cristão, que o nome se populariza, mas há quem sustenha que já tinha presença anteriormente, relacionado com o culto ao deus Marte, igual que Martinus. Martim existe, por sua vez, como a variante mais comum de Martinho, por influência do castelhano Martín. Mas são esses antropónimos os que subjazem sempre nas suas ocorrências toponímicas?

Ocorrências de Martim (vermelho);
Marta (verde) e Mariola (azul),
com os seus derivados.  Prema na
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Quem deitar uma olhadela sobre a toponímia da Galiza e de Portugal, nomeadamente no norte (com a notável ausência da área da atual província de Lugo), muito provavelmente se deparará com Mariolas, Martas e Martins que lhe resultem, no mínimo, um bocado estranhos. O primeiro impulso é considerá-los antropotopónimos, talvez por via de genitivo, que é o modo mais comum de chegarem a nós os antropónimos transformados em nomes de lugar. E, com efeito, em muitos casos será que se trate, justamente, de nomes de pessoa em genitivo, como demonstram os claros Vila Martim (uilla Martini, graf. isol. Vilamartín) e Veiga Martim (graf. isol. Veigamartín), ambos na Galiza. Mas não é sempre assim. Porque Lamartim, as Martins, as Martizes, o Martil ou Martige, e assim por diante, resultam claramente estranhos a essa explicação. O mesmo acontece com a Marta (de Riba e de Baixo), a Martinha, o Marto, Martul ou as Martizas, (note-se como, em muitos casos aparece um artigo que indica, quando menos muito provavelmente, um valor apelativo - pois, alheio ao antropónimo) e no caso de Mariola e de Mariolo, para o qual deve considerar-se com suma prudência a possibilidade de um hipocorístico dar para gerar um topónimo. Também é quase impossível, no caso de Marta, que o topónimo tenha a ver com o zoónimo da especie Martes martes, a marta europeia, por ser um animal geralmente insignificante no que diz a respeito da atividade humana de nomear lugares (para um mapa do hábitat da marta europeia, veja-se aqui). Deve existir, portanto, outra explicação.

Os três casos, Mariola, Marta e Martim, apresentam uma raiz IE *mar- que resulta variante do tema *mor-. Esse tema, *mor-, tem ocorrência em galego-português no substantivo morro, que significa penedio, rochedo, pequena elevação ou outeiro suave. Com *mor-, e muito provavelmente com esse significado, temos o nome de comarca do Morraço, e também Morrão, Morreira e Morreiras, como lugares com vários morros; ou ainda Morro a funcionar como topónimo, nomeadamente no Brasil, importado pelos portugueses em formas de “Morro de...”. Porém, a variante *mar- é talvez mais comum, e sobre ela aparecem formas mais variadas, como Marão, MaranhizMariocos, Marofa, Marouquim, Marranços, Marrazes, Marroços e Marrotes, e também os nossos Mariola, Marta, MarimMartim, quando Marim e Martim não forem antropónimos.

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